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marquises

fumava sob a marquise dum prédio em construção, singela indulgência em noite tão árida. ia em direção ao trem, entraria no prédio da direita ou talvez atravessasse a praça e esperasse na parada um ônibus; o importante não é isso, mas o fato de que quando, de repente, quando fumava, olhando ao longe enquanto tragava, peguei-me a esperar por ti. não sei exatamente em que momento foi, nem sei como aconteceu, esperava por ti. não numa espera consciente – se alguma consciência havia, era a de que não viria -. não comecei a pensar em ti, nem a lembrar dos tempos que tivemos juntos, não. simplesmente percebi que te esperava, como algo que já estava ali, vindo do nada e num rompante te ataca. como o coiote que, na TV, só começava a cair depois de percebido o passo dado no vazio, de repente te esperava eu. sem saber te esperava, sem drama, sem saudade, sem nada. nem sei porque, mas te esperava. mas sem a vontade de que chegasse, como se fosse apenas a casca da espera; era como quando se veste um terno e, sem porquê, se sai dançando uma valsa; não me perguntava “será que ela vem”, nem cuidava que horas eram. percebe? te esperava sem esperar e sabendo não te esperar. e chovia. chovia como se o mundo inteiro fosse se encher d’água duma vez só; era dessas chuvas de final de inverno, quando o moribundo tem seu último suspiro. chovia. e pessoas apressadas passavam, seus guarda-chuvas desfigurados nas mãos e sapatos molhados nos pés molhados. a luz dos postes dando nas gotas de chuva tingia a noite de um branco leitoso e os carros passavam lentos na minha frente. ninguém me olhava. e eu te esperando como quem não espera. Foi um lapso, não pense que durou muito tempo, foi apenas um lapso – mas uma sensação tão viva que quase muda o mundo -. de repente eu te esperava, sob uma marquise, fumando cigarros; a tela azul de construção tremulando qual um véu, as sarjetas feitas em rio. te esperava – um lapso -, e o curioso é seguir te esperando mesmo depois de tanto tempo, tantos anos; te esperando, em noites de chuva, fumando cigarros sob as marquises dos prédios – e tu não vem -.

metroviária

às vezes eu acho que, de alguma forma, vem tudo acontecer na minha frente. claro que não é verdade, mas como, sem recorrer à metafísica, explicar o que me aconteceu hoje? entrei no trem, na estação sapucaia. entrei no trem aliviado duvidando poder, dado que ontem roubaram os fios da rede elétrica que move o trem. entrei e sentei num banco do lado oposto ao da porta por que entrara, vermelho e desconfortável. o trem andou e não andou lento como eu temia, mas andou sim foi mais rápido que o normal – talvez tentasse o operador (preferia poder dizer maquinista) tirar o atraso de ontem -; talvez não tivesse andado de fato mais rápido, pode ser que tenha eu sozinho aumentado a velocidade do trem. chegamos antes do previsto na estação esteio, e foi onde começou a insólita sucessão de fatos que descreverei a seguir. Continuar lendo

do casamento

levantou sorrateiramente da cama, como toda noite fazia, esgueirou-se pelo quarto em direção ao banheiro. o ronco do marido acobertava sua fuga. sentia-se culpada, que mulher não se sentiria culpada por enganar o marido? mais do que isso, que ser humano estaria livre da vergonha frente a tal vilania – que de tão vil deixa vexado mesmo seu narrador -. a culpa não a detinha, nem o medo, tudo era parte de uma mágica e excitante experiência. entrou no banheiro escuro, trancou a porta, ligou a fluorescente de cima do espelho; o perfume que sentia roubava-lhe o chão e virava gosto em sua boca ávida. e o desejo virou pressa. abriu o armário com violência e rapidamente tinha em mãos – e da mão para a boca – seu tesouro. Continuar lendo