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do homem romântico que viu pássaros e morreu

Me fosse dado
ser pássaro
e voaria.
Teria por chão
o vento,
tomaria impulso
nuvem por nuvem
e jamais tocaria novamente esse solo.
Pudesse voar
e não estaria mais aqui,
e não teria mais saudade
e meu coração
pequeno e tão,
mas tão ocupado
não seria senão músculo
e não acomodaria senão o sangue de pulsar
por meu corpo miúdo de
pássaro só
e calado.
E de tão
passarinho
seria contente assim.
E de tão
voador
só pararia nunca
pra morrer
de cansaço
na Corticeira
na Aroeira
ou Jequitibá.
Então, de bem em cima
miraria o chão
em meu último suspiro
de bicho,
e um último pensamento
de vivo,
um miúdo, só e calado
pensamento de pássaro
passaria por mim
como vento,
e a seu gosto
eu voaria como Fernão.

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haicai (in process)

ar duro e frio
quero outra janela
por que suspirar

vento gelado
preciso d’outra vista
para suspirar

do amor

sou um homem doente da chaga mais cruel, mortal e mais completamente incurável; e desisto. quis que me amasse – e te amo -; quero agora odiar-te apenas  e o quanto antes. quero esmagar tua cabeça contra uma parede, ver sangue e lágrimas verterem desta face que tanto adoro; te matar e morrer depois, junto. devo torturar-te com as músicas mais tristes e minha cara de maior sofrimento, quando não de indiferença… tendo suado minha febre numa cama larga demais, tendo chorado meu amor num apartamento vazio, devo agora matar-te com minhas próprias mãos, com todo o carinho que te tenho. sou um criminoso passional, sou um assassino, um apaixonado, suicida, sou Romeu de punhal na mão.

me beija que eu me faço rompante, e te faço a mulher mais rompante do lugar*. me beija que eu te invado tão rápido e tão forte que te faltará até o ar de suspirar não vai e eu… não vai, fica comigo e eu te escrevo um poema pedindo pra que volte. e te levo pro alto, pro último andar do prédio mais alto da cidade mais cheia de prédios mais altos e te levo pro alto, pro terraço do prédio mais tão mais alto que os outros e. e entre sinalizadores e pára-raios, pernas, braços, bocas e olhos fechados… antenas. e nossa urgência transmitida via satélite pras televisões, pro tédio das salas, pras esposas sentadas, e me beija quando os raios começarem a raiar no céu fundo d’água e ainda mais forte me beija quando a chuva tocar primeiro nossa pele, pra depois molhar o resto do mundo.


* sim, isso parece com um texto do Michel Malamed no Regurgitofagia (pode-se ver aqui ó: http://www.michelmelamed.com.br/br/regurgitofagia/livro/?4).

.

trago o peito
opresso,
trago estrelas
nos olhos
, o corpo
cansado e
uma urgência
por sentar-me;

bato às portas
da cidade,
amor, não.
nem pressa
não trago.

mas um gole
de um café
amargo
e as costas
a doer-me

diz-se do homem, que busca felicidade, que age, por natureza, em busca do amor e do bem. eu considerei ali em cima o seguinte: a busca pela felicidade é característica apenas daquele pra quem a felicidade está colocada como possibilidade, como algo alcançável. há uma imensidão de pessoas, vida real, que não tem a felicidade como meta palpável. e a Vanessa argumentou: Acredito que todo o ser humano deseja a felicidade e ser amado. Penso que a felicidade é diferente para cada um, para alguns pode ser um prato de comida ou quem sabe….  poder enterrar seus mortos. e ainda o Wallace diz: […] Ele (o Egocentrismo) faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos. [alerta: rsrs o texto daqui pra frente pode parecer abstrato e academicista, mas peço que atente para o quão vivo é assunto e o apelo que tudo isso tem na nossa própria realidade] dizer que todo ser humano busca felicidade é, primeiro, considerar que há coisas que todo ser humano, cerca de sete bilhões de seres vivos, fazem exatamente igual ou, como diz Wallace, compartilham uma configuração padrão; e, segundo, que nessa configuração, impresso em algum lugar do circuito, está o “código” que nos impele à busca da felicidade. por esse caminho, deve-se também considerar que os atos práticos, cotidianos dos sete bilhões de seres humanos que vivem no mundo devem todos se dar na busca pela felicidade… e como pode que não sejamos então, e nisso concordamos, que não sejamos felizes? aí tem uma coisa: felicidade é diferente para cada um; mas e se a felicidade de um for a tristeza de outro, e mais, se a felicidade de um for a própria tristeza? é possível? tem que ser pra que se possa considerar a busca pela felicidade como parte de uma natureza humana, caso contrário, haveria seres humanos, bilhões deles, que violentam a própria natureza, ou seja, que não compartilham do que se chama natural. esses são os loucos, os psicopatas, sociopatas, esses são os sujeitos que devem ser mantidos à margem da sociedade pra que a planificadora ideia da busca pela felicidade se mantenha aceitável. a “realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud” se alimenta na desconsideração da variação. pois eu não vejo a possibilidade de uma natureza humana. vejo sim que a arisca existência humana não aceita a coleira de algo estático como uma “natureza”. nas palavras de Sartre: “a existência precede a essência”. seres humanos não tem natureza, mas possibilidades que surgem no contexto de sua existência. bem entendido, o que digo é que as condições concretas da vida de uma pessoa determinam a forma como ela será na vida, a forma como se relacionará com o mundo e com os outros seres no mundo. assim, da forma como eu entendo as coisas, se vamos debater, por exemplo, a liberdade, devemos compreender essa liberdade não como um bem individual que se pode atingir a partir duma mudança pessoal na forma de encarar o mundo, ao menos não só como tal. a liberdade depende também e, penso, preponderantemente de condições concretas, ou seja, de um contexto de vida em que a liberdade possa ser expressada. e não falo apenas do engarrafamento, da fila no super, falo de algo anterior a isso, falo da própria espinha dorsal da sociedade em que vivemos. e de tudo, mais.

breve nota sobre o tempo e a precisão na vida

acontece que lendo antigas notas acabo encontrando coisas que ainda fazem algum sentido; é o caso dessa reflexão sobre o tempo, sobre a precisão, sobre essa pressa que nem de longe percebe a urgência da vida. à (já) antiga nota:

agora são 16h32. mas outros relógios marcam outros horários. Quintana disse, “o tempo é um ponto de vista dos relógios”; é tão poético, tão bonito, singelo, perspicaz, pena estar errado. há uma temporalidade na vida, tal como há o fim, há perda, há morte… do tempo, o eterno devir, o caminho sem volta da vida. o problema são as horas, os minutos, os segundos, 9.192.631.770 períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133 – o segundo já foi 1/31.556.925,9747 do tempo que  a Terra levou para girar em torno do Sol a partir das 12 horas do dia 4 de janeiro de 1900 -. artifícios que a humanidade cria para se apropriar da vida, da natureza, que acabam tomando, eles, conta de nossas vidas. de que serve tanta precisão? as horas só servem pra demarcar o tempo da exploração do meu corpo cansado; os minutos e segundos que medem minhas esperas doem. “Navegar é preciso. Viver não é preciso”.

NAVEGAR É PRECISO
(Fernando Pessoa)

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
“Navegar é preciso; viver não é preciso”.

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

o que Pessoa disse, tomo com outro significado, mas um significado justo também, penso que Pessoa não se oporia à minha interpretação: não sei pra que serve tanta exatidão, de que serve um relógio atômico que nunca atrasa? pois eu me propus um exercício: adiantei meu relógio em sete horas. agora acordo às 14h, entro no trabalho às 15, almoço às 19, entro novamente no trabalho às 21 e saio do trabalho só à 1h do dia seguinte. comecei antes de ontem e me sinto completamente estranho, parece que as horas pararam de fazer sentido pra mim, olhar no relógio não me localiza no tempo. é até melhor do que quando aboli o relógio.

é noite e chove;
em paris, todos fumam
no ano de 1968.

sento a um canto de parede.
apenas um leve reflexo de chuva
me molha as pernas.

à primeira tragada
engrossa a chuva.
na segunda,
faz-se um aguaceiro.

e a fumaça que sobe
apesar da água que cai
deixa claro que tudo é contradição.

e mostra que eu,
que me acho poeta,
penso mais no poema
que na memória;

e que o poema é todo invenção.

***

meu quarto abriga sombras
que só aparecem quando apago a luz.

poemas de amor são ridículos

poemas de amor nunca chegam a ser anacronismos, mas tampouco estão jamais em dia com a realidade. todo poema de amor é uma cápsula do tempo, é algo que quase se sente de novo, mas não, é um poema sobre uma memória de amor; poemas de amor são ridículos e eu também os escrevo, ridículos poemas de amor… esdrúxulos, como as cartas do Álvaro de Campos.

TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS
(Álvaro de Campos)

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos se culpa tento por ter escrito cartas de amor quanto por lembrar delas e por achá-las ridículas, que perturbada personalidade sente culpa da culpa? todas. tanto mais quando se fala sobre uma culpa de amor, e amor é sempre culpa, sempre posse, sempre sofrer… como canta Tom Zé: “ridículo chorar, patético viver, paradoxal prazer, apologia do sofrer”, aliás, Tom Zé faz um profundo estudo sobre esse assunto que ora arranho no disco “Estudando o Pagode na opereta do Segregamulher e amor”, de 2005 (que pode ser encontrado aqui: http://sharebee.com/17bbec32). mas enfim, arrumando uns papéis achei alguns desses poemas de amor derretidos em blocos e folhas soltas…

vendo um livro
que não existe.
o livro de meus amores
não vividos,
ilustrado com paisagens
donde nunca estive.
um livro de poesia
em prosa.
o romance das saudades
que não sinto
escrito em qualquer papel
do chão,
em letras de carvão.

a cada página um invento,
um contorno a cada falha
de minhas parcas memórias;
a cada capítulo,
uma mentira nova.

e se por acaso
num verbo solto chego a
conjugar que te amo
escapo no primeiro
monossílabo pra longe
onde lembrar não doi…

fugi de minas.
mas deixei lá meu coração,
cativo.

PRISIONEIRO do anacronismo
que é o meu amor.

há uma saudade
coisa disforme,
inespecífica.
mas que,
de quando em quando
ganha forma e,
em mim,
se torna tu.
e aí é quase bonito
esse pouco que sinto,
ARREMEDO DE AMOR.

na verdade, ridículo é o amor, o amor romãntico, apaixonado, doente, o amor ruinoso e eterno de Romeu e Julieta, um amor que só pode existir nas páginas de algum livro e nas lápides, nas tristes lápides dos amantes mortos; os poemas e cartas só são ridículos pelo tema, e isso nem representa um problema…

UM ABRAÇO

teu abraço [me absorve];
e no calor do teu braço
sou menino e
homem feito,
a vela ou galope
singrando os
caminhos de teu peito
– calma coxilha,
cerro do Jarau -,
de tanto deleite
em tanto horizonte.

ao sul de si,
de mim,
tenho-me todo.
certo e pleno
de uma certeza que não é minha,
mas é do mundo;
que não surge em mim,
mas me atravessa
e nunca finda.
uma clareza que transcende meu ser,
mas que fica, sinta,
em minha mão,
a cada milímetro de epiderme,
receptores,
músculos,
nervos,
eu sei.