Arquivo da categoria: inespecificidades

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tire minha camisa molhada. deve agora tirar minha camisa molhada e secar meu suor. e enquanto seca deve dizer palavras doces e me olhar com olhos agradáveis, que me tranquiliza. deve me tirar a roupa e secar meus braços, minhas pernas, meu tronco, meu sexo. deve secar meu rosto carinhosamente, como a mãe dum filme que vi há muito tempo, numa carícia contínua e interminável de mãe. deve sentir meu suor molhando suas mãos, e deve me abraçar e sentir que escorro pelo seu colo, pelve, pernas, pele. e então vem o momento em que me beija, o momento em que inegavelmente seus lábios tocam os meus e eu fecho os olhos e não sei se você os fecha também e só o que sei de você são seus lábios e sua língua e as minhas mãos nas suas costas; e seus dentes e seu nariz e cabelos. e então vai. deve ir embora. deixar-me para que eu possa acordar só, te procurar na cama, na sala, na geladeira e não te encontrar de jeito nenhum.

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poemas de amor são ridículos

poemas de amor nunca chegam a ser anacronismos, mas tampouco estão jamais em dia com a realidade. todo poema de amor é uma cápsula do tempo, é algo que quase se sente de novo, mas não, é um poema sobre uma memória de amor; poemas de amor são ridículos e eu também os escrevo, ridículos poemas de amor… esdrúxulos, como as cartas do Álvaro de Campos.

TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS
(Álvaro de Campos)

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos se culpa tento por ter escrito cartas de amor quanto por lembrar delas e por achá-las ridículas, que perturbada personalidade sente culpa da culpa? todas. tanto mais quando se fala sobre uma culpa de amor, e amor é sempre culpa, sempre posse, sempre sofrer… como canta Tom Zé: “ridículo chorar, patético viver, paradoxal prazer, apologia do sofrer”, aliás, Tom Zé faz um profundo estudo sobre esse assunto que ora arranho no disco “Estudando o Pagode na opereta do Segregamulher e amor”, de 2005 (que pode ser encontrado aqui: http://sharebee.com/17bbec32). mas enfim, arrumando uns papéis achei alguns desses poemas de amor derretidos em blocos e folhas soltas…

vendo um livro
que não existe.
o livro de meus amores
não vividos,
ilustrado com paisagens
donde nunca estive.
um livro de poesia
em prosa.
o romance das saudades
que não sinto
escrito em qualquer papel
do chão,
em letras de carvão.

a cada página um invento,
um contorno a cada falha
de minhas parcas memórias;
a cada capítulo,
uma mentira nova.

e se por acaso
num verbo solto chego a
conjugar que te amo
escapo no primeiro
monossílabo pra longe
onde lembrar não doi…

fugi de minas.
mas deixei lá meu coração,
cativo.

PRISIONEIRO do anacronismo
que é o meu amor.

há uma saudade
coisa disforme,
inespecífica.
mas que,
de quando em quando
ganha forma e,
em mim,
se torna tu.
e aí é quase bonito
esse pouco que sinto,
ARREMEDO DE AMOR.

na verdade, ridículo é o amor, o amor romãntico, apaixonado, doente, o amor ruinoso e eterno de Romeu e Julieta, um amor que só pode existir nas páginas de algum livro e nas lápides, nas tristes lápides dos amantes mortos; os poemas e cartas só são ridículos pelo tema, e isso nem representa um problema…