uma pequena crônica meteorológica

sete horas; sete e quinze; sete e vinte e dois.
7°15′ N, 7°22′ L, são as coordenadas de um vale nas montanhas Udi, no estado de Kogi, na Nigéria; o vale é pouco habitado e na região de minhas coordenadas há apenas uma fazendola cercada por imensas propriedades onde ninguém vai, mas ninguém pode entrar*. sete horas, acordo e desligo o despertador; enquanto isso, os fazendeiros de Kogi, retornam à casa sob o sol escaldante do meio-dia. sete e quinze, acordo novamente. o plano é: levantar, vestir-me, tomar café tranquilamente e ir; o plano falha num piscar de olhos, melhor, num fechar de olhos. dormirei por mais sete minutos – sete, por estranho que seja -. às sete e vinte e dois me acorda um susto, não o despertador que agora já dorme fundo; a essa hora, os agricultores de Kogi põem o arroz no fogo – lá são onze e vinte e dois – e um, da soleira da porta, olha para o céu tentando adivinhar sol ou chuva para a tarde que vem. visto-me, consciente do irremediável atraso tento ter pressa, mas em meu corpo a indolência dá o compasso. a caminho da cozinha percebo a janela aberta; olho para fora tentando adivinhar chuva ou sol no resto da manhã. a pergunta me escapa pela boca – mero hábito -: chove? e eu que falava sozinho obtenho duas inesperadas respostas: “- no rádio, disse que não chove”; “- liga a tevê no canal do tempo”. não respondo, mas logo penso, por que não simplesmente olhar pela janela? afinal de contas, não era um questionamento científico, algo que requeresse certeza ou um preciso percentual. e pensando sozinho olhei pela janela e disse, numa humilde aceitação do fato, acho que vou me molhar. qual a diferença entre uma chuva trinta por cento provável e outra quarenta e cinco. pra que tanta precisão, margem de erro, pra que tanto número, se a chuva segue sendo água caindo do céu, molhando gente, bicho e planta. “quem lê tanta notícia?”??, tudo isso só faz criar uma capa sobre a vida, como o limo forma no cano, de sorte que a gente acaba sem perceber a vida ela mesma, que já nem se reconheçe mais se não for através duma tela – será esse o tal mundo real? -. esse jeito de viver não passa de invenção.
e de que serve toda essa tecnologia se só serve para apartar ainda mais as gentes trancados em suas casas e apartamentos sem janelas; os olhos que não vêem o cinza que o céu veste pra chover, os corpos que, fechados, não sentem na pele o frescor da chuva que cai.

no vale das montanhas Udi, uma breve pausa. o menino derrama sobre si uma cuia d’água fresca. o peito molhado, brilhando ao sol africano – que é exatamente o mesmo daqui, ainda que tão diferente – ele sente um arrepio e eu, daqui, inveja.

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* a quem questionar a conjunção: não há, de fato, uma contradição aparente na frase; a contradição está na história da propriedade da terra, e daí vem a justificativa do “mas”.

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