metroviária

às vezes eu acho que, de alguma forma, vem tudo acontecer na minha frente. claro que não é verdade, mas como, sem recorrer à metafísica, explicar o que me aconteceu hoje? entrei no trem, na estação sapucaia. entrei no trem aliviado duvidando poder, dado que ontem roubaram os fios da rede elétrica que move o trem. entrei e sentei num banco do lado oposto ao da porta por que entrara, vermelho e desconfortável. o trem andou e não andou lento como eu temia, mas andou sim foi mais rápido que o normal – talvez tentasse o operador (preferia poder dizer maquinista) tirar o atraso de ontem -; talvez não tivesse andado de fato mais rápido, pode ser que tenha eu sozinho aumentado a velocidade do trem. chegamos antes do previsto na estação esteio, e foi onde começou a insólita sucessão de fatos que descreverei a seguir. a porta abriu, como sempre; as pessoas entraram, como sempre; talvez estivessem todos ainda desconfiados – como eu – de um funcionamento precário do trem e talvez fossem todos – como eu – ficar impressionados com a velocidade com que o trem andaria. a porta fechou, sempre fecha. abriu. abriu ao som de um apito e na minha frente surgiram, em preto, os seguranças da estação carregando um corpo cambaleante, uma mulher de meia idade. atrás vinha o homem de meia idade, meio sem jeito, agradecendo. os seguranças depositaram aquela senhora no banco vermelho e desconfortável que fica logo à frente daquele que eu então ocupava. sentou a mulher e o homem do lado. um segurança ainda disse: “tomou um ar agora, vai ficar bem. eu aviso o pessoal de lá pra ajudar, senão ela ainda cai na escada” e se foi com a benção do homem que a todo tempo agradecia. vendo a mulher, pensei que passava mal, olhos meio fechados, cabeça frouxa, corpo como que derretido sobre o banco do trem. pensava até em ajudar a tal senhora quando ela finalmente deu sinal de vida, “filho da puta”, ela disse, virando-se com esforço para o homem que recebia aquilo como se fosse um pingo d’água. “filho da puta”, insistiu, e ele reagia pedindo a ela discrição, ela não cedeu, “filho da puta, filho da puta sim” seguia dizendo com esforço e as palavras lhe saiam espremidas da boca. “filho da puta”, “olha o escândalo”, “filho da puta sim, filho da puta” e a mulher – eu agora percebia – completamente alcoolizada, prosseguia em seu monólogo a que o homem reagia discretamente, como, deveria ele pensar, a situação pede. “olha o pessoal, tu fica incomodando as pessoas”. “tu é que é um filho da puta”, e estapeava debilmente os braços do homem que nem bem se protegia de tão parca ameaça, “tu é um boca-aberta. foi me trocar por outra. mas trocar por outra. mas ainda se fosse uma mulher, uma mulher… mas não, uma secretária, secretária!”, e o desdém se percebia claro como o cheiro da cachaça, e a mulher se esforçava por ser minimamente expressiva no contar das canalhices deste que, então descobriamos – descobriamos todos os que estavam no vagão, dado o volume da voz que a mulher falava -, deveria ser seu companheiro. quanto à acusação, nada fez ele além de proteger-se dos tapas – que agora, finalmente, pareciam causar-lhe desconforto -. ela, que não parava, seguia animada da misteriosa força de que só os bêbados dispôem. “uma secretária de trinta anos”, dizia magoada, “ainda se fosse uma mulher” e dizia “mulher” enchendo o peito, fazendo com as mãos um gesto novo – novo, pois até então ainda não havia movido as mãos a não ser para os já referidos tapas -, sustentava as mãos no ar, com a palmas voltadas para si e as movia num movimento amplo mas suave e dizia, como se crescesse, “ainda se fosse uma mulher”, e nesse gesto concretizava todo o resto de dignidade que ainda tinha e que tão pouco era, que nem o gesto conseguiu manter por muito tempo. levantou-se e pôs-se a chutar o ex-companheiro – nesse momento já o considerava assim -, “não gosto mais de ti”, dizia concentrada em, ao mesmo tempo, chutar o homem manter-se em pé desafiando o movimento sinuoso do trem. uma mão no tubo metálico, outra a gesticular injúrias no ar, os pés frouxos no chão do trem, uma tentativa torpe de manter algum equilíbrio. e a todas essas, o homem estava já saturado, o que se podia notar também dos espectadores acidentais de tal tragédia. e já quase perdendo a paciência, ou talvez superando a culpa que o mantinha inerte e que nem sempre em casos como esse é, a culpa sentida, compatível com o crime, disse “eu não quero te bater”, e disse com a mão ameaçadoramente erguida, o polegar fazendo ângulo reto com o indicador que se juntava com o médio que se enfileirava com os outros dedos; mão de quem muito já bateu, mas agora dizia “não quero te bater”, talvez fosse a culpa, talvez só não desejasse publicidade para sua vileza. a despeito da manual ameaça que se erguia, a tal senhora seguia a chutar, chutar homem, banco, metal e a gente que assistia só era poupada se fugia, “sai daí, deixa de fiasco”, ele disse, e foi essa a senha. “eu faço fiasco se eu quiser”. isso ela disse enquanto se enroscava no tubo de metal posto na vertical do chão ao teto do trem, ela se enroscava como, nos filmes, bailarinas fazem por dinheiro. ela fazia pela provocação. “tu me trocou por uma secretária, uma secretária de trinta anos”, e calou. e quando voltou a falar foi que ela disse, quase chegando à estação de destino – destino esse, geográfico, que, eu logo descobriria, compartilhavamos – disse algo que já tinha dito, mas que agora dizia diferente, dessa vez tinha clareza; não queria ferir o ex-companheiro, senão que apenas constatava um fato. “eu não gosto mais de ti”, disse pendurada no tubo prateado colocado na horizontal desde a frente até o fundo do vagão. e, naquela pendente posição circense, mostrou ao homem e a todos os presentes, que nunca perdoaria aquela falta, ser trocada por uma secretária de trinta anos. e já no destino, que nos ocorreu ser o mesmo e que se mostrou hoje mais imprevisível do que sempre, olhei para trás enquanto andava, olhei para ver por último a mulher nos braços de um segurança – tranquilamente bêbada -, e o homem, sem jeito, agradecendo.

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